Este é o meu clube. Este é o meu partido.

A pandemia domina a atualidade portuguesa, e mundial, convenhamos, desde há cerca de um ano. O vírus espalhou-se entre nós e exacerbou os medos primordiais do ser humano. Assim, deixamos de frequentar espaços e conversar presencialmente, de forma regular, com outras pessoas, que não as que vão constituindo os nossos agregados familiares.

 

Ainda assim, sempre que posso, escapo-me até algum espaço social. Carrego o meu desinfetante, as máscaras diversas, cumprindo as regras da melhor forma que sei, e misturando um pouco de fé e de sorte, com resultados bem-sucedidos, até ao momento. Nessas deslocações, dignas de uma estória distópica, aproveito sempre para me ir atualizando, no que concerne ao que pensa o povo, ou pelo menos aquele com que privo habitualmente. Sendo residente no arquipélago dos Açores, o tema mais recorrente, para além do supramencionado vírus, é o da política, como consequência natural das recentes eleições regionais que alteraram de forma impactante a realidade insular.

 
 

O contacto que mantenho com amigos e familiares que moram noutras regiões do país, indica que a temática não é muito diferente, um pouco por todo o Portugal à beira-mar plantado. As pessoas falam cada vez mais de política nos cafés, nas mercearias e restantes espaços de convívio. Mesmo agora, que a amizade está parcialmente confinada, o tema persiste e intensifica-se. Tenho-me perguntado, frequentemente, porque motivo se fala tanto de política agora, quando, há uns meros vinte anos, o meu quotidiano era marcado por uma quase total ausência de consciência política dos adultos que me rodeavam.

A expressão mais habitual era: “não me preocupo com política.” Agora é: “viste o debate ontem?”

 
 
Comparação da tabela da Classificação dos debates a jogos de futebol.

É precisamente de debates que tencionava vir aqui falar. Comecei a escrever este texto no dia 5 de janeiro de 2021, ao cair da noite. Na pausa para pensar, acabei por assistir à Grande Reportagem da SIC, e senti-me na obrigação de alterar o que vinha aqui escrever. Porque percebi que estaria a dar publicidade gratuita a um partido que já beneficia demasiado da mesma. E não tenciono contribuir para esse peditório, para já.

Assim sendo, prefiro antes debruçar-me sobre os motivos que levaram a “conversa de tasca” a transfigurar-se de tal forma que, hoje em dia, uma boa parte da discussão remete-nos para figuras altamente polémicas como Donald Trump ou, se recuarmos ligeiramente, José Sócrates.

 

Em primeiro lugar, é inevitável falar do papel do digital neste admirável novo mundo. As redes sociais contribuíram para o advento do novo extremismo político que, por sua vez, vai contribuindo para uma maior difusão da discussão política. Discussão essa que passa por uma quase total ausência de argumentos factuais e por uma devoção quase religiosa a uma ideologia, ou pior, a um partido ou pessoa.

Essa devoção remete-nos para a questão dos debates para as eleições presidenciais, em curso. Tenho acompanhado uma parte considerável dos mesmos. Da análise que procuro fazer de cada debate, nunca me passou pela cabeça aplicar pontuações, ou sequer equacionar “vencedores”. Acontece que, na ciência política tradicional, não se ganham ou perdem debates. Debatem-se assuntos e apresentam-se programas políticos, ideológicos e profissionais, com vista a, eventualmente, cativar eleitorado.

 

E, convenhamos, até ao momento, nenhum dos candidatos a Presidente da República cumpriu de forma aceitável esse trabalho, com a exceção de alguns momentos pontuais, que não valem o esforço de serem nomeados, porquanto foram escassos e pouco informativos. Não quero com isto dizer que os candidatos não apresentem interessantes programas políticos. Mas não o fazem no contexto do debate, onde se apresentam ao ataque, ou na defesa, como um confronto de artes marciais ou um jogo de futebol.

É essa a política moderna, que se legitimou em Portugal com a ascensão de um partido político ideologicamente associado ao fascismo e à extrema-direita, mas que já anteriormente se difundia entre todos os partidos que podemos considerar do “arco tradicional”. Uma política clubística.

Assim, os candidatos apresentam-se a jogo defendendo uma ideologia. A direita e a esquerda política surgem como adversárias. Antónimos, no verdadeiro sentido da palavra, sem qualquer possibilidade de diálogo ou convergência. Apelam-se às massas populacionais para repudiar os comunistas, os socialistas, os liberais e os capitalistas. Talqualmente o fará qualquer adepto ferrenho de um clube, quando confrontados com provas de corrupção e falência moral, os simpatizantes dos partidos negam a sua existência. E a fomentar toda esta espiral destrutiva, surge a comunicação social, com as suas mais diversas valências, mas com particular ênfase nos jornais digitais.

Não pretendo apontar dedos a ninguém, mas não pude deixar de sentir um arrepio que ecoou pelas décadas de história passada, quando abri o portal digital do jornal Observador e deparei-me com o que designam de “tabela de classificação geral”, onde se encontram os candidatos presidenciais em fila, como se de clubes de futebol se tratassem, com pontuações e “número de debates” a substituir o habitual “número de jogos”.

 
Tabela do Observador relativa às presidenciais 2021 do dia 7 de Janeiro de 2021

“O partido não é o clube de futebol. Mesmo que às vezes o seu líder seja um antigo comentador de futebol.”

Não quero, com este desabafo, minimizar o papel do futebol, até porque, sendo sportinguista, tenho acompanhado de forma mais próxima o nosso campeonato durante o ano de 2020. Mas o certo é que a cultura clubística está agora enraizada na política portuguesa.

As consequências são mais que muitas e evidentes. A política veio até à tasca. Algo que até poderia parecer positivo, numa primeira instância, pois significava uma maior discussão democrática entre todos, e um aumento do número de votos, num país que padece do vírus da abstenção. Todavia, tal como já se verificava nas redes sociais, a política disseminada de forma massiva, sem factos, argumentos racionais ou lógica, torna-se apenas uma guerra de morais e insultos, cujo único resultado produtivo será o do aumento do ódio entre pares.

O partido não é o clube de futebol. Mesmo que às vezes o seu líder seja um antigo comentador de futebol. Enquanto não aprendermos a distanciar os dois assuntos, continuaremos numa espiral destrutiva que tem feito de Tino de Rans o candidato com argumentos mais viáveis, no contexto da tipologia de debates em vigor. Numa guerra de populismos, quem melhor que Vitorino, o homem do povo, para vencer?

texto: Pedro Parreira

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